Política

’36 horas’, por Carlos Lula*

Lula

O ano de 2020 não foi um ano típico e 2021 sinaliza que não será tão diferente. A ameaça de mais casos da Covid-19 no Brasil, de qualquer forma, é real. Embora não seja nada fácil olhar para todo este cenário de incerteza nacional, desde o início da vacinação contra a doença, na data histórica de 17 de janeiro, começamos a substituir o medo pela esperança.
A ciência mostra a sua força com a produção em tempo recorde da vacina contra a covid, já os profissionais de saúde demonstram o quão importante é proteger a vida humana. Por ser um marco em nossa nação, relembro a emoção inspiradora dos primeiros vacinados contra o novo coronavírus no Maranhão.
A indígena Fabiana Guajajara defendeu que “vacinar é preciso para continuar existindo”. Uma mensagem poderosa dos povos indígenas que habitam o nosso território e que se estende para todos nós. Existência e resistência se confundem nesta batalha. A médica infectologista Conceição Pedroso reforçou o agigantamento do Sistema Único de Saúde (SUS) e a capacidade que ele dispõe para absorver essa grande meta de vacinar a maior parcela da população. O fisioterapeuta Henrique Lott disse que “um fio de esperança vem com essa vacina”. As vozes ecoam o caminho para vencer a pandemia: a imunização e a fé na ciência.
Com o novo aumento de casos percorrendo o país, a chegada da vacina, na noite da segunda, dia 18 de janeiro, colocou o Governo do Maranhão em operação de guerra para distribuir os imunobiológicos aos 217 municípios. Embora com menos doses do que o esperado, as ampolas da CoronaVac serão essenciais para proteção de mais de 78 mil vidas.
Nas trinta e seis horas seguintes, a força-tarefa das equipes da Saúde e Segurança entregou todas as primeiras doses da vacina, dentro de um território um pouco maior que a Itália. Com aviões, helicópteros, caminhões e vans, o plano inicial para a distribuição ocorrer em três dias. Nas primeiras 14 horas, mais de 160 municípios já detinham suas doses. Os gestores não perderam tempo. Na terça-feira (19), dia da distribuição, 99 cidades iniciaram a vacinação.
A logística do Maranhão foi estudada, reavaliada e comprovadamente bem-sucedida. Evidentemente estávamos prontos e tudo estava às claras, definido em nosso Plano Estadual de Vacinação. Por outro lado, é um desafio logístico para qualquer empresa ou governo quando não há informação sendo claramente compartilhada. Vejam que, em meio a operação do governo federal para trazer a AstraZeneca/Oxford do Instituto Serum, da Índia, a única certeza de todos os estados é que receberiam as vacinas.
Doze horas após a chegada dos imunobiológicos no aeroporto de São Paulo, nenhuma informação sobre quantidade de doses por estado, logística de distribuição ou prazos para chegada nos principais aeroportos. A falta de clareza é uma péssima estratégia no meio da guerra. Há estados no enfrentamento de uma caótica crise sanitária, a ocupação de leitos perto do colapso, uma nova cepa a elevar o número de doentes, tocando suas estratégias internas, enquanto aguardam as decisões ‘não tomadas’ do governo federal. Será assim o ano inteiro, nas diversas fases desta tão importante campanha de vacinação?!
O enfrentamento da Covid-19 pede mais. Exige um trabalho conjunto, claro e célere. Mais doses de Coronavac e da AstraZeneca, sem longos períodos de descontinuidade da vacinação. Quanto antes vacinarmos a maior parcela de brasileiros, mais rápido a doença será controlada. Temos capacidade para concluir tudo este ano, mas dependemos – ainda – da exportação das vacinas. Precisamos que as imagens dos brasileiros sendo vacinados se transformem em rotina, que seja algo incorporado ao dia a dia e não um evento atípico dentro do SUS. Para transformar esta ação no cotidiano, é urgente que estejamos preparados de forma conjunta. O caso do Maranhão, no que se refere à logística que lhe cabe, é um exemplo para o país.
O Programa Nacional de Imunização é um estratégia bem-sucedida há décadas. Na guerra contra a Covid-19, precisamos voltar ao plano inicial de efetuar uma ação conjunta e sair da bolha dos trabalhos individuais. Se o primeiro não funcionar bem, na ponta atrasaremos a chegada da vacina, hoje, a única esperança para vencermos o vírus nesta pandemia.

*Presidente do Conass e Secretário de Saúde do Estado do Maranhão

Comentários

Comentários

Conheça o Neto Cruz

Contador (CRC/MA 012900), Jornalista (DRT 1792/MA), Acadêmico de Direito, Membro Fundador e Efetivo da Academia de Letras de Paço do Lumiar . Criou o Blog do Neto Cruz em 29 de Novembro de 2010. E-mail: [email protected] Instagram: @netocruz_doblog