Com os olhos voltados para um dos tesouros mais ricos da Baixada Maranhense, a comunidade Santa Clara, na RESEX Baía do Tubarão, transformou o canto dos pássaros em oportunidade de renda, preservação ambiental e fortalecimento do turismo comunitário. A quinta edição do projeto “De Grão em Grão” reuniu moradores, pesquisadores e estudantes da UFMA numa verdadeira imersão sobre observação de aves — setor que cresce silenciosamente no Brasil e começa a colocar Humberto de Campos no radar do ecoturismo.
Durante três dias de atividades, mais de 40 participantes entre marisqueiras, artesãs, pescadores, estudantes e professores percorreram trilhas, manguezais e áreas de preservação em busca da avifauna maranhense. O resultado impressionou até os organizadores: cerca de 50 espécies de aves registradas em uma única passarinhada, incluindo a revoada dos guarás, um dos maiores cartões-postais naturais do litoral maranhense.
A ação foi coordenada pelo Núcleo de Pesquisa e Documentação em Turismo da UFMA, em parceria com instituições ambientais, pesquisadores e lideranças comunitárias. Mais do que ensinar técnicas de birdwatching, o projeto aposta numa estratégia considerada cada vez mais valiosa: transformar as próprias comunidades tradicionais em protagonistas do turismo sustentável.
Enquanto destinos turísticos disputam investimentos milionários, Santa Clara aposta no que já possui de mais valioso: natureza preservada, cultura tradicional e conhecimento popular. O discurso foi reforçado pela professora Mônica de Nazaré Araújo, coordenadora do evento, ao destacar que a proposta é estruturar a observação de aves como produto turístico capaz de gerar renda sem destruir o território.
A marisqueira Neurilene Ramos resumiu o sentimento da comunidade ao relacionar diretamente a preservação ambiental com a sobrevivência das famílias locais. “Se o mangue tem passarinho, tem vida”, disse. A fala traduz o espírito do projeto: proteger aves, manguezais e tradições virou também uma forma de defender o futuro econômico da própria comunidade.
Especialistas já enxergam a observação de aves como um dos segmentos mais promissores do ecoturismo brasileiro. E Santa Clara parece ter entendido cedo que, no Maranhão, o próximo grande ativo turístico pode não estar nos grandes empreendimentos — mas justamente no silêncio dos mangues, no voo dos guarás e na força das comunidades tradicionais.

