
Na política, há destinos que parecem escolhidos — e outros que parecem engolidos. A trajetória de Bia Venâncio carrega algo dessa segunda natureza. Não apenas uma gestora em meio a tempestades, mas uma personagem tragada por forças maiores do que ela própria.
Entre 2009 e 2012, enquanto o município fervilhava em disputas e decisões que extrapolavam gabinetes, formava-se ao redor dela uma engrenagem poderosa. Grupos, interesses, alianças momentâneas — estruturas que se movem nas sombras e que, muitas vezes, usam nomes e rostos como escudos. E quando a maré vira, esses mesmos rostos tornam-se alvos.
Há quem diga que a política é um organismo vivo. Mas talvez seja mais que isso. Talvez se aproxime do conceito apresentado por Thomas Hobbes em sua obra clássica, Leviatã. No livro, o Estado é descrito como uma entidade colossal, quase monstruosa, criada pelos homens para garantir ordem — mas que, uma vez erguida, passa a ter força própria, esmagadora, impessoal.
O Leviatã de Hobbes é necessário para conter o caos. Mas também é implacável. Ele protege, controla, sustenta — e, se preciso, sacrifica.
Ao olhar para trás, para aquele período turbulento, muitos enxergam na ex-prefeita não apenas a protagonista das manchetes, mas alguém que foi absorvida por esse grande corpo político. O sistema a abraçou quando convinha, sustentou enquanto interessava, e depois, sob o peso das crises e disputas, a deixou à própria sorte. Engoliu-a no auge da tensão institucional e, mais tarde, a devolveu à arena pública já marcada pelas cicatrizes.
Não se trata de absolver erros nem de apagar controvérsias. Trata-se de compreender o contexto de uma engrenagem maior que indivíduos. A política da Vila do Lume, naquele tempo, operava como um palco onde atores entravam confiantes e saíam transformados — alguns fortalecidos, outros consumidos.
Com sua morte, encerra-se não apenas uma biografia, mas um capítulo que ajuda a explicar como o poder funciona nas cidades brasileiras: intenso, personalista, por vezes cruel. O Leviatã continua de pé, mudam apenas os nomes que sobem e descem de seus ombros.
E talvez, no silêncio que se segue à partida, reste a reflexão: na política, quem realmente governa — o indivíduo ou a criatura que ele ajuda a sustentar?
Vá em paz e descanse, Dona Bia…
