No último domingo do ano, uma ação que se apresentou como “solidária” acabou gerando mais desconfiança do que aplausos em Primeira Cruz. Cadu Santos e seu irmão, o prefeito de Luís Fernando, estiveram no município promovendo um “grande sorteio de prêmios” — mais de 50 itens e cerca de 250 cestas básicas. Entre os brindes, números chamaram atenção: 14 geladeiras, celulares, ventiladores e colchões. O volume da ação deixou de orelha em pé a galera que foi rapidamente reverberado nas redes sociais.
A pergunta que não quer calar: por que esse “investimento” não foi feito em Humberto de Campos? Moradores cobraram coerência administrativa diante de demandas dos humbertuenses não resolvidas, como problemas crônicos de infraestrutura. “Tem rua que não seca nem no verão, e o prefeito prefere fazer festa fora”, resumiu um morador. Para muitos, a iniciativa soa menos como caridade e mais como ensaio eleitoral antecipado visando a prefeitura em 2028.
Em Primeira Cruz, o clima foi de vacina política. Lembranças recentes de gestões passadas e críticas a práticas assistencialistas reapareceram com força. Comentários ironizaram o tamanho da esmola e apontaram tentativa de comprar simpatia onde já existe prefeito em exercício e agenda própria. A mensagem que emergiu das redes foi clara: o eleitorado está mais atento — e desconfia quando o gesto é grande demais e o endereço parece errado.
O episódio revela um movimento arriscado: confundir solidariedade com palanque. A reação popular indica que, no atual cenário, ações espetaculares fora do domicílio político tendem a produzir efeito inverso. Em vez de aplausos, geram cobrança; em vez de votos, criam resistência. Em Primeira Cruz, a leitura predominante foi simples e dura: cada gestor deve cuidar primeiro da sua casa — e o povo não aceita mais ser tratado como plateia…

