
Nem sempre é má vontade. Às vezes, é falta de preparo.
E quando a falha parte do serviço público, quem paga o preço é o cidadão — muitas vezes, com a própria saúde…
É o caso de Ana Cláudia, moradora do povoado Vila Nova, depois do Conceição Rosa, na zona rural de Itapecuru-Mirim. Paciente renal crônica, ela depende de hemodiálise três vezes por semana, em São Luís.
Nos últimos meses, no entanto, o transporte sanitário que deveria buscá-la em casa às 3h30 da manhã simplesmente deixou de aparecer.
Ana Cláudia desabafou em áudio enviado à reportagem.
Sem alternativa, a paciente vem dormindo na casa de familiares em Itapecuru para conseguir pegar o transporte das 4h rumo à capital. “Tô cansada de depender dos outros pra não perder meu tratamento. Só quero que o prefeito veja minha situação e me ajude”, completa.
O prefeito Dr. Fillipe Marreca, conhecido por sua postura humanizada e presença nos bairros, tem se mostrado sensível a causas sociais. Contudo, o caso de Ana Cláudia evidencia o que se repete em muitos municípios: uma equipe técnica que, por vezes, não acompanha o ritmo das boas intenções do gestor.
A ausência de preparo administrativo e de empatia institucional pode transformar políticas públicas em números frios — e vidas em estatísticas.
O que está em jogo
A hemodiálise não é um tratamento opcional — é uma questão de sobrevivência.
O transporte sanitário, conforme determina o art. 196 da Constituição Federal e a Lei nº 8.080/1990 (Lei Orgânica da Saúde), é dever do Estado e responsabilidade direta do município, que deve assegurar acesso digno e contínuo ao tratamento.
Quando esse serviço falha, o risco não é apenas de atrasos: é de agravamento clínico, internações e, em casos extremos, perda da vida.
O descaso com a logística sanitária rural, onde as distâncias e estradas dificultam o deslocamento, agrava um problema histórico — a desigualdade no acesso à saúde pública.
Um apelo além da dor individual
Ana Cláudia não fala apenas por si.
Seu apelo é o grito silencioso de centenas de pacientes espalhados pelo interior do Maranhão que enfrentam o mesmo drama: tratamentos interrompidos, descaso burocrático e promessas não cumpridas.
“Não tô pedindo luxo, tô pedindo o meu direito. Tô pedindo pra viver…”
Palavras simples, mas que expõem uma ferida aberta no sistema público de saúde.
O papel do controle social
O caso reacende a importância do controle social, previsto na Política Nacional de Participação e Gestão do SUS, que permite ao cidadão fiscalizar e cobrar a efetividade dos serviços públicos.
Cabe à sociedade — e especialmente ao poder público — ouvir, corrigir e agir.
Se há boa vontade política, é hora de traduzi-la em gestão eficiente, capacitação de equipes e compromisso humano com quem mais precisa.
Nota da Redação
A reportagem entrou em contato com a Secretaria Municipal de Saúde de Itapecuru-Mirim, mas até o fechamento desta matéria não houve resposta oficial. O espaço segue aberto para manifestação.
O caso de Ana Cláudia é mais do que uma denúncia — é um espelho do que acontece quando a máquina pública não enxerga o ser humano por trás do número do prontuário.
Que o apelo dessa mãe e paciente sirva de alerta: gestão pública também é sensibilidade, e saúde não pode esperar.
🩺 Direitos de quem faz hemodiálise
- Direito ao transporte gratuito
- A Prefeitura ou o Estado devem garantir o transporte até o local de tratamento, quando o paciente mora longe ou não tem condições de ir por conta própria.
- Isso está previsto nas normas do SUS e em decisões da Justiça.
- Direito ao tratamento gratuito
- Todo o tratamento de hemodiálise deve ser 100% custeado pelo SUS, inclusive consultas, exames e medicamentos.
- Nenhum valor pode ser cobrado do paciente.
- Direito a medicamentos gratuitos
- Os remédios usados para controlar a doença (como eritropoetina, vitaminas, quelantes etc.) devem ser entregues sem custo pela rede pública.
- Direito a um atendimento humanizado
- A Secretaria de Saúde deve garantir respeito, pontualidade e conforto no transporte e no atendimento.
- Tratar o paciente com descaso ou fazê-lo perder sessões pode ser considerado violação de direito à saúde.
- Direito à prioridade
- Pessoas em tratamento de hemodiálise têm atendimento prioritário em hospitais, órgãos públicos e bancos, como prevê a Lei nº 10.048/2000.
- Direito à informação
- O paciente tem direito de saber tudo sobre o seu tratamento, horários, riscos e opções médicas, e pode cobrar explicações sempre que houver mudança.
- Direito a benefícios sociais
- Se não puder trabalhar, pode pedir auxílio-doença ou aposentadoria por invalidez no INSS.
- Quem vive em situação de vulnerabilidade pode solicitar o BPC (Benefício de Prestação Continuada).
- Direito à isenção de impostos
- Pode ter isenção de Imposto de Renda, IPI e IOF em alguns casos, especialmente se for reconhecida como pessoa com deficiência ou incapaz para o trabalho.
- Direito a recorrer
- Se o transporte for negado ou o atendimento for precário, o paciente pode denunciar à Promotoria de Justiça, Defensoria Pública ou ajuizar ação judicial para garantir o direito.
- Direito à dignidade
- Nenhum paciente renal pode ser tratado como “sem direito”.
- A Constituição garante o direito à saúde e à vida digna, e o município é responsável por cumprir isso.