Como no clássico Hamlet, de William Shakespeare, o Maranhão vive hoje sua própria tragédia: o fantasma de José de Jesus Gomes da Silva — o empresário Pacovan — parece ainda vagar pelos corredores da política, invocado a cada nova versão sobre o escândalo das emendas parlamentares. Morto em 2024, Pacovan se tornou o personagem central de uma história onde os vivos tentam convencer o público de sua inocência, e o morto, paradoxalmente, é quem leva a culpa.
No depoimento recente ao Supremo Tribunal Federal, o ex-prefeito de São José de Ribamar, Eudes Sampaio, afirmou ter sido “induzido ao erro” por Pacovan, negando qualquer envolvimento com os deputados federais Josimar de Maranhãozinho, Pastor Gil e João Bosco, citados nas investigações.
A declaração reabre o enredo e desloca o peso da responsabilidade para quem não pode mais se defender — um expediente tão antigo quanto o teatro de Shakespeare: quando o poder é ameaçado, o morto é sempre o mais conveniente dos culpados.
Tal qual o espectro do rei em Hamlet, Pacovan é evocado para sustentar a narrativa política de quem precisa sobreviver no tabuleiro. O problema é que, neste drama, o fantasma não pede justiça — ele é usado para encobrir a verdade. O empresário, que em vida transitava entre prefeituras e parlamentares, agora é citado como peça-chave de um suposto esquema de propina, mas sem que se possa ouvir sua versão, cruzar depoimentos ou confrontar provas.
A justiça, assim como no reino da Dinamarca, parece hesitar diante da sombra do poder e do silêncio dos mortos.
Enquanto o Supremo reavalia os autos e as declarações de Eudes, uma pergunta que não quer calar nas entrelinhas do processo: quem se beneficia com a culpa do morto?
Entre a conveniência política e o revisionismo moral, Pacovan se transforma em personagem simbólico — o bode expiatório que, mesmo sob a lápide, segue servindo a muitos senhores.
Em Shakespeare, o fantasma voltava para clamar por vingança. No Maranhão, ele retorna para proteger inocentes demais.
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