No Maranhão, dois casos brutais de espancamento até a morte revelam um padrão de barbárie normalizada e uma justiça que parece caminhar em câmera lenta. Afrânio Vitor Trindade Serra e Jerder Pereira da Cruz não tinham nada em comum — exceto o destino trágico de morrerem vítimas de linchamento, aos olhos de todos, e até hoje sem resposta definitiva do Estado.
Afrânio, pai de dois filhos, o mais novo nascido dias antes de sua morte, foi perseguido por populares após se envolver em um acidente de trânsito no bairro Anil, em São Luís. Supostamente alcoolizado, bateu com o carro em uma casa e, ao tentar sair do local, foi cercado, espancado e morreu com traumatismo craniano. Uma morte filmada, comentada, amplamente noticiada. Mas até agora, nenhum laudo cadavérico foi emitido. Nenhuma prisão. Nenhuma conclusão investigativa. Só a dor da família e a revolta nas redes sociais.
Situação similar vive a companheira de Jerder Cruz, morto em outubro do ano passado, no bairro Novo Horizonte, em Paço do Lumiar. Diagnosticado com esquizofrenia, Jerder sofreu um surto psicótico e foi brutalmente espancado após invadir uma igreja. Em vídeos, aparece nu, amarrado, ensanguentado, pedindo ajuda. Também morreu no Socorrão II após três paradas cardiorrespiratórias. O caso, porém, segue em fase de “morte a esclarecer”, enquanto o laudo pericial nunca foi concluído.
Dois homens. Duas tragédias. Nenhuma justiça.
Afrânio foi linchado por, supostamente, “dirigir embriagado e fugir”. Jerder, por “invadir uma igreja em surto”. Nos dois episódios, o que se viu foi a substituição da Justiça pelo impulso violento das massas — homens que se arvoram juízes e carrascos, e que até hoje seguem impunes. O sistema, por sua vez, é cúmplice por omissão.
A barbárie foi documentada. Há vídeos, testemunhas, postagens, câmeras de segurança. Mas o que falta é ação. A polícia investiga, mas não prende. O IML não entrega os laudos. A Secretaria de Segurança silencia. E a sociedade, que chora, também se acostuma.
Esses crimes não foram apenas homicídios. Foram execuções públicas, alimentadas por uma cultura de linchamento legitimada pela morosidade estatal. E o mais grave: ambos os casos envolveram pessoas em situação de vulnerabilidade — seja por transtorno mental, seja por imprudência momentânea.
Até quando a vida humana será tratada como descartável diante da fúria popular? Até quando as instituições vão assistir à justiça com as próprias mãos e se limitar a notas de repúdio?
É urgente romper esse ciclo de impunidade travestida de justiça. Ou a violência vai continuar sendo premiada com silêncio — e os assassinos, com liberdade.
Jerder e Afrânio não morreram apenas pela violência de seus algozes. Morreram, também, pela inércia do Estado.

