O Ministério Público de São Paulo (MPSP) denunciou um juiz aposentado por uso de documentos falsificados e falsidade ideológica. A acusação aponta que o magistrado, por mais de quatro décadas, utilizou um nome fictício para enganar diversas instituições públicas, enquanto ocultava sua verdadeira identidade.
De acordo com a denúncia, o juiz, identificado como Edward Albert Lancelot Dodd Canterbury Caterham Wickfield, é, na realidade, José Eduardo Franco dos Reis. O motivo para a manutenção da identidade falsa permanece desconhecido, segundo a Promotoria.
A investigação teve início em outubro do ano passado, quando o juiz tentou obter uma segunda via de seu RG utilizando o nome falso em um posto do Poupatempo, na cidade de São Paulo. A Polícia Civil deu seguimento à apuração do caso, que resultou na denúncia formal.
O g1 tentou entrar em contato com o juiz, mas até o fechamento desta reportagem não obteve retorno. O processo está sob segredo de justiça.
A denúncia foi formalizada pelo MPSP na 29ª Vara Criminal de São Paulo, em 27 de fevereiro de 2025. A Justiça aceitou a denúncia, e o juiz foi formalmente acusado na última segunda-feira (31).
Identidade falsa no Judiciário
O juiz aposentado, de 67 anos, durante sua carreira no Tribunal de Justiça de São Paulo, utilizou o nome fictício para atuar em cargos de destaque. Sob a identidade falsa, José Eduardo Franco dos Reis concluiu o curso de Direito na Universidade de São Paulo (USP) na década de 1980, prestou concurso e ingressou na magistratura paulista nos anos seguintes.
Como magistrado, ele atuou em varas cíveis, assinando milhares de sentenças sob o nome de “Edward Albert Lancelot D C Caterham Wickfield”. O juiz também desempenhou funções como coordenador do Núcleo Regional da Escola Paulista da Magistratura em Serra Negra (SP). Sua aposentadoria foi publicada em 2018.
A trama envolvendo a identidade falsa do juiz é um caso complexo, e o Ministério Público segue investigando os detalhes do esquema.
A história do juiz que viveu sob uma identidade falsa por mais de 40 anos faz lembrar o enredo de O Retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde. Assim como Dorian Gray, que leva uma vida de aparências e esconde seu verdadeiro eu atrás de uma fachada, o juiz, usando o nome fictício de Edward Albert Lancelot Dodd Canterbury Caterham Wickfield, também construiu uma vida de engano, ocultando sua verdadeira identidade, José Eduardo Franco dos Reis. Ambos os personagens criam uma persona que lhes permite navegar por mundos que, de outra forma, não seriam acessíveis, e suas histórias estão imersas no tema da duplicidade, onde o desejo de escapar das limitações da própria identidade leva a escolhas que desafiam a moralidade e a verdade. O romance de Wilde, que explora a vida de um homem que se esconde atrás da fachada de uma juventude eterna, ecoa as motivações misteriosas do juiz, cuja verdadeira razão para esconder sua identidade ainda permanece desconhecida.

