Política

Interiorização da covid-19 no Brasil pode criar os ‘mortos invisíveis’, diz historiador

O historiador Luiz Antônio da Silva Teixeira afirma que com a migração da covid-19 das capitais para o interior pode provocar uma “invisibilização da epidemia” e dos mortos pela doença. Algo que aconteceu em 1918, na “gripe espanhola” – pior crise sanitária da história.

“Acredito que haverá uma invisibilização da epidemia. Cada vez mais pessoas vão morrer em regiões mais distantes, em lugares mais pobres, no interior”, explica o pesquisador da Casa Oswaldo Cruz, da Fiocruz, no Rio. “A epidemia vai ficar mais invisível.”

CAMPINAS – O historiador Luiz Antônio da Silva Teixeira afirma que com a migração da covid-19 das capitais para o interior pode provocar uma “invisibilização da epidemia” e dos mortos pela doença. Algo que aconteceu em 1918, na “gripe espanhola” – pior crise sanitária da história.

“Acredito que haverá uma invisibilização da epidemia. Cada vez mais pessoas vão morrer em regiões mais distantes, em lugares mais pobres, no interior”, explica o pesquisador da Casa Oswaldo Cruz, da Fiocruz, no Rio. “A epidemia vai ficar mais invisível.”

Segundo o historiador, os primeiros estudos sobre a “gripe espanhola” consideravam registros do Rio (que era a capital do Brasil) e de São Paulo, onde o vírus se disseminou primeiro e rapidamente provocou mais mortes, mas estudos recentes mostraram um “lado oculto da gripe”. O das mortes em regiões distantes dos centros, onde não houve contagem nem divulgação dos óbitos. “Um dado que ficou fora da história.”

Teixeira se diz otimista. Para ele, a covid-19 não deve ser tão “violenta e poderosa” como a “gripe espanhola” – que matou pelo menos 35 mil pessoas no Brasil, no ano final da 1.ª Guerra Mundial (1914-1918), e pelo menos 50 milhões no mundo. “Só no futuro, daqui uma década, os historiadores vão calcular esse número.”

Podemos comparar a atual pandemia com a de 1918, da influenza H1N1, ou de outras doenças infecciosas?
É muito difícil se pensar em comparativo, em relação a outras epidemias. Porque fora a epidemia gigante de gripe espanhola, a gente não tem nada parecido no mundo. Nada que tenha se disseminado com a força que teve a influenza em 1918. Acho que não vamos ter um número tão grande – nem de infectados nem de mortos. Mas não existe muita certeza.

A covid-19 não leva vantagem em relação à gripe espanhola, no quesito maior propagação, em decorrência da vida moderna?

Existem dois aspectos. Biologicamente, a gripe espanhola foi muito mais contagiosa, teve um poder de difusão muito mais forte. Mas socialmente as pessoas não andavam de avião naquela época, não pegavam carro e iam para outro Estado. Isso hoje faz com que o coronavírus se propague mais.

Então teremos mais transmissão e mortes por covid-19?

Acredito que haverá uma invisibilização da epidemia. Cada vez mais, pessoas vão morrer em regiões mais distantes, em lugares mais pobres, no interior. E nas grandes cidades, onde a maior parte já vai ter se infectado, vai diminuir. E a epidemia vai ficar mais invisível. Na gripe espanhola, estudos recentes de história mostraram exatamente isso. Os primeiros dados falavam sobre São Paulo e Rio, sobre a epidemia e a violência dela. Depois, mais recentemente, surgiram estudos sobre casos em Salvador e várias outras regiões. Eles começaram a mostrar o lado oculto da pandemia de 1918. Sobre como ela foi chegando aos lugares mais distantes, matando muito mais gente, sem contato com o serviço de saúde, sem contato com a imprensa. E isso não ficou para a história – no interior da Bahia, tem um trabalho de uma pesquisadora que mostra que os meses seguem e a doença vai se alastrando.

Ricardo Brandt, O Estado de S.Paulo

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Contador (CRC/MA 012900), Jornalista (DRT 1792/MA), Acadêmico de Direito, Membro Fundador e Efetivo da Academia de Letras de Paço do Lumiar . Criou o Blog do Neto Cruz em 29 de Novembro de 2010. E-mail: [email protected] Instagram: @netocruz_doblog